Armas ou Livros: quem pode "resolver" o problema da criminalidade?

É natural que conforme nossas ideologias e vivências de mundo nos vejamos mais próximos de um lado do espectro político (desde a extrema esquerda à extrema direita). Porém temos visto o sentido contrário dessa lógica como conduta de uma significativa parcela da sociedade: pessoas, que por se sentirem de um determinado lado do espectro, passam a defender bandeiras que nem elas mesmas têm opinião formada, ou às vezes com posicionamento pessoal até mesmo contrário.

O efeito disso é o aporte dado para afixar a polarização de vieses cada vez mais excludentes dos paradigmas de alternativas de governança, digo, ou se implementa A ou se implementa B. A questão é que Políticas Públicas não são ciências exatas e, por definição, têm como consequência o impacto direto e indireto na população e, por isso, várias variáveis intrínsecas à sociedade como: cultura, renda, nível de escolaridade, região onde vive, etc., devem necessariamente serem levadas em conta. Por vezes, a melhor elaboração não é nem A e nem B, mas sim uma ponderação mesclada destas duas Políticas Públicas, ainda que vistas como dicotômicas.

Para ilustrar meu ponto de vista, pego como exemplo um tema bastante em evidência desde as últimas eleições de 2018: "Criminalidade: uma questão de segurança pública ou de educação?". Direitistas vão dizer que o que resolve o problema são forças de segurança pública muito bem aparelhadas, com um grande contingente de policiais e uma população civil com posse de arma liberado. Em contrapartida, esquerdistas pedem o fim das polícias e diz que o que resolve a criminalidade é investimento em educação. Penso que não é difícil perceber que ambos os lados esquecem de levar em conta a seguinte variável: o tempo.

Em primeiro lugar, não há no mundo nenhum modelo de políticas públicas voltadas para combater a criminalidade que "resolveu" o problema desta. A violência sempre existiu, existe e vai continuar existindo enquanto a humanidade perdurar. O que se deve buscar de maneira pragmática, portanto, é a implementação de políticas públicas capazes de reduzir os índices de criminalidade para patamares cada vez menores.

Em segundo lugar, e agora explicando a questão da variável tempo, vamos recorrer a um cenário hipotético e imaginar que as forças de segurança e aparatos policiais fossem aumentados substancialmente a ponto de, por exemplo, termos um policial militar em cada uma das esquinas de nossas cidades, 24h por dia, durante sete dias por semana. Creio eu que nem o mais extremista de esquerda duvidaria que, com isso, crimes como: assaltos, estupros, assassinatos, latrocínios, furtos, roubos, etc., tenderiam a zero. O que mostra que é válida a proposição defendida pela direita, pelo menos para resultados de curto e médio prazos. O problema aqui é a insustentabilidade orçamentária a longo prazo, como por exemplo, com o que custaria no futuro com a previdência dos agentes de segurança ou com a renovação da frota e aparatos de uso das instituições de segurança pública, se o número de agentes fosse elevado ao limite tendendo ao infinito, como usado aqui apenas como exemplo.

Por outro lado, temos a tese defendida pela esquerda como primazia para a solução da violência: mais investimentos em educação. Novamente retomarei a um cenário hipotético apenas para avaliar o que aconteceria em um outro caso extremo. Retiremos todas as forças de segurança pública de cena a partir de hoje: forças armadas, policiais militares, bombeiros, agentes penitenciários e policiais civis. Agora passemos a investir todo esse recurso, antes despendido na segurança pública, e o aloquemos 100% na educação. Pois bem, uma ação bem menos radical do que essa, que foi a greve da polícia militar o Espírito Santo e que durou 22 dias em fevereiro de 2017, registrou o maior pico no número de arrombamentos, saques, roubos, assassinatos e massacres em um espaço tão curto de tempo no Estado. Esse episódio talvez seja o maior exemplo de, não só da importância das forças de segurança, mas também da incapacidade de parte da população de evitar o mundo do crime só por questões de valores éticos e morais. Esse surto de infrações mostrou que muitas dessas ações transgressoras são sim suprimidas pela sensação de punição, caso algum atentado contra a lei venha a ser cometido.

Porém, nem o mais extremista de direita é capaz de negar que o investimento na educação de crianças e adolescentes é capaz de proporcionar um amadurecimento cívico em muitos desses jovens, a ponto de impedir que sigam a vida do crime. Claro que isso não é uma verdade absoluta, pois se verdade absoluta fosse, não haveria crimes comuns cometidos por pessoas "estudadas", graduadas, pós-graduadas. Se fosse uma verdade absoluta, não haveria crimes comuns nos países de mais altos IDH's (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo como: Noruega, Suíça, Austrália, Alemanha, Dinamarca, Canadá, etc. Se fosse uma verdade absoluta, os Estados Unidos não teriam a maior população carcerária do mundo.

Todavia, apesar de não "resolver" o problema, penso eu que a educação seja mesmo o fator que mais pode contribuir para a redução da criminalidade a longo prazo. Já a curto e médio tempo, o investimento maciço em segurança pública é, de fato, o que produziria resultados mais rapidamente eficazes. Prova disso é que, em apenas sete meses do governo atual, só a expectativa de endurecimento e autonomia das forças de segurança, reduziu os principais índices de criminalidade em torno 25% quando comparado com o mesmo período de 2018.

Portanto, para se alcançar níveis de criminalidade aceitáveis, é preciso deixar os ideologismos de lado e entender que não são "Armas OU Livros", de forma binária, que vão produzir o alcance de resultados satisfatórios de redução da violência, mas sim "Armas E Livros" (assim mesmo com a conjunção aditiva "E" em vez da conjunção alternativa "OU") é que são capazes de produzir resultados realmente efetivos e sustentáveis.